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18/12/2010

A Mulher de Zaquintos de Dionysios Solomos, par Henri Carrières

Crédits photographiques : Majid Saeedi (Getty Images).

«Assim como os tipos do Cristo precederam ao Cristo, as sombras do Anticristo precedem a este. Na erdade, cada acontecimento deste mundo é um tipo dos que estão por vir, pois a história avança à maneira de um círculo que vai se alargando sucessivamente.»
John Henry Newman, O Anticristo. (*)

Note originale.

Plat1Solomos.jpgA propósito de Dionysios Solomos, La Femme de Zante [A Mulher de Zaquintos] (Le Bruit du temps, 2009).
Exemplar recebido do editor.

Há coisa de uns anos, em 1994 ou 1995, num dos salões da biblioteca da Universidade Jean Moulin, em Lião, quando, imerso nas minhas pesquisas consagradas ao diabo, eu me interessei pelas surpreendentes figurações deste nos textos apocalípticos (do Velho Testamento aos apócrifos cristãos, passando pelos textos intertestamentários e, lógico, o Novo Testamento), tive em mãos a obra eruditíssima de Astérios Argyriou intitulada As exegeses gregas do Apocalipse na época turca, 1453-1821 (1).
Assoberbado de leituras de caráter pouco recreativo, das quais era preciso extrair o essencial (daí que, na adega da casa dos meus pais, dormitem pilhas de folhas avulsas que, pouco a pouco, converto em arquivos eletrônicos), não fiz nenhum apontamento sobre essa leitura em particular, cujo tema me pareceu demasiado específico, então ignoro se o autor chegou a evocar o estranho texto de Dionysios Solomos, A Mulher de Zaquintos, cuja redação foi mais ou menos contemporânea do segundo cerco de Missolonghi, em abril de 1826, pelo exército egípcio (treindado por franceses) de Ibrahim Paxá.
Esse se livro se apresenta, portanto, pelo menos para mim, em sua inquietante estranheza.
Comentado com muita propriedade pelo tradutor, Gilles Ortlieb, num livrinho impecável como todos aqueles publicados pela editora Le Bruit du Temps, esse texto desnorteador foi incansavelmente revisto por Solomos e permaneceu desconhecido até 1927, ano de sua primeira publicação, que não despertou análises ou elogios, tamanho o embaraço por ele causado aos leitores profissionais, críticos ou mesmo escritores afeitos ao poeta.
Essa obra fulgurante evoca, na pena do grande poeta grego que cantou a morte de Lord Byron, quem se sacrificou para que a Grécia triunfasse dos seus velhos inimigos, a visão apocalíptica do pope Dionysios, retirado na capela de S. Lypios, na ilha de Zaquintos (Zakynthos), a qual viu nascer o escritor.
Lembrando a simplicidade radiante dos velhos textos sagrados que anunciam desencadeamentos inauditos de violência, o de Solomos mistura o registro das mais humildes realidades cotidianas com as intrusões de um sobrenatural negro: uma mulher maledicente, suja, ressumando podridão, cujo cadáver invadido por nuvens de moscas nosso monge contemplará, é o foco da infecção de Zaquintos, razão ou causa, ninguém sabe, mas o sinal, em todo caso, da ruína da Grécia.
Solomos não deixou nem mesmo um de seus alunos e executor testamentário, Iakovos Polylas, publicar o texto, provavelmente porque a mulher de Zaquintos é o retrato malicioso de uma parente do autor.
Esse detalhe não tem, de resto, nenhuma importância, senão a de prover os eruditos de um assunto qualquer para ocupá-los. A grandeza do texto de Solomos foi ter estendido um espelho turvo no qual erações de gregos tentaram deitar o olhar, como Zissimos Lorenzatos, esse grande crítico infelizmente de todo esconhecido na França (o que não é o caso, as usual, nos países de língua inglesa). Escreve Lorenzatos : «Com Solomos, o problema da expressão artística entra em nossa vida cultural, da mesma forma como o problema da independência [lembremos que Solomos viveu no período do protetorado britânico] entrou em nossa vida nacional».
Parafraseando Lorenzatos, de quem citei uma passagem, bem mais misteriosa, em Maldito seja Andreas Werkmeister !, poderia afirmar que o texto de Solomos levanta a questão da figuração literária do Apocalipse, mas como enigma, de um modo bem diferente de Walker Percy em O amor em meio às ruínas, por exemplo, no qual o autor se vale da temática escatológica para falseá-la e invertê-la em paródia, como se a Grande Prostituta fosse apenas a amante de um Cristo em decomposição, proposição que por certo teria horrorizado Solomos : «No espelho obscuro se desenha vagamente uma figura de Cristo espanhol de olhos fundos. As bexigas proliferam no seu rosto. Vacúolos se abrem no seu peito. É o novo Cristo pustulento, o Cristo pecador. O antigo Cristo morreu pelos nossos pecados, mas o seu fracasso está consumado. A reconciliação não ocorrerá. O novo Cristo econciliará o homem com os seus pecados. O novo Cristo está embriagado, no fundo de uma vala» (2).
Dupla originalidade de A Mulher de Zaquintos : se esse livro pode conservar o verde primitivismo da imagem que não será mais do que uma quimera para autores do século passado, como Percy, a figuração poética dos sinais do Apocalipse é, segundo Solomos, essencialmente elíptica, e até enigmática, ao contrário portanto das interpretações alegóricas, redutoras e mesmo simplistas de muitos Pais da Igreja, como Cesário de Arles, que, perante a urgência apocalíptica, pouca atenção ligou à poesia, como é compreensível : «[…] no cavalo negro, vemos o povo mau que obedece ao diabo» (3). Ora, esse mesmo «cavalo negro» representava a fome para Vitorino de Poetovio : «Pois disse o Senhor : 'Haverá também fome em diversos lugares'. Esse dizer se aplica especialmente ao tempo do Anticristo, época em que sobrevirá uma grande fome, que trará sofrimento aos próprios homens». Para Anselmo de Havelberg, por fim, o cavalo negro significará «a sombria doutrina dos heréticos, que o supracitado dragão monstruoso atiçou contra a Igreja : não tendo logrado submergi-la na efusão do sangue dos mártires, ele quer arruiná-la pela grande perversão dos sistemas heréticos» (5).
Solomos não evoca em seu texto cavalo nenhum, mas antes cachorros sarnentos e uma mulher cuja carne é podridão, e que uma leitura sem inteligência teria rapidamente confundido com a Prostituta da Babilônia, mesmo se, como escrevi, o leitor não pode deixar de divagar, com desgosto, sobre a natureza do amante (ou antes : sobre a multidão de amantes, que são legião) da mulher de Zaquintos.
Podemos imaginar com nitidez a transposição desse pesadelo de Solomos para as telas do cinema, quem sabe em futuro próximo, quando esgotar-se o interesse pelas últimas horas de lucidez de Nietzsche, por um Béla Tarr, o qual se divertiria a filmar demoradamente um par de sapatos sujos secando sobre um capacho, para evocar esta imagem soberba da mulher de Zaquintos : «E quando ela falava baixinho para emporcalhar o nome de alguém, sua voz lembrava o arrastar dos pés de um ladrão no capacho» (p. 31).
Quero assinalar a excelente recensão do livro de Solomos feita pelo meu amigo Spyros Yannaras no Kathimerini, aqui retomada pelo site das edições Le Bruit du Temps.

Notas
(*) A tradução dessa passagem de Newman se baseia no original em inglês.
As demais citações do texto são feitas a partir do francês. [Nota do Tradutor]
(1) Não consegui adquirir nem esse livro, nem o de Octave Merlier, La Vision prophétique du moine Dionysios ou La Femme de Zante. Essai d'anastylose de l'œuvre, publicado pela Belles Lettres (1987).
(2) Walker Percy, L'amour parmi les ruines (Rivages poche/Bibliothèque étrangère, 1993), p. 200.
(3) Cesário de Arles, L'apocalypse expliquée (Desclée de Brouwer, coll. Les pères dans la foi, 1989), p. 61.
(4) Vitorino de Pœtovio, Sur l'Apocalypse et autres écrits (Cerf, coll. Sources Chrétiennes, no. 423, 1997), VI, 2, p. 81.
(5) Anselmo de Havelberg, Dialogues (Cerf, coll. Sources chrétiennes no. 118, 1966), p. 77.