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21/10/2009

Presença e permanência de Georges Bernanos par Adalberto de Queiroz


Rappel
Georges Bernanos dans la Zone.
A estrada de Cormac McCarthy (ma critique sur La route traduite en portugais par Henri Carrières).

Um amigo virtual e francófono, Juan Asensio, crítico literário que mantém o blog Stalker, na seqüência de uma troca de mensagens sobre o consagrado autor francês Georges Bernanos, me provoca para encontrar filiações bernanosianas no Brasil. Uma resposta difícil, confesso !
Do tempo que passou no Brasil (1938-1945), em meio a uma vida sempre nômade, Georges Bernanos angariou muitas amizades e influenciou uma série de escritores, mas não acho que tenha criado discípulos na ficção; na vida, ao contrário, semeou muitas amizades e registrou várias polêmicas – sem, talvez, ter deixado inimigos públicos.
Dos amigos que fez em seu exílio brasileiro, Bernanos recebeu a bela homenagem no livro Bernanos no Brasil : Testemunhos Vividos, editado pela editora Vozes, em 1968, artigos de verdadeiros admiradores de Bernanos, coligidos e apresentados por Hubert Sarrazin. O livro se refere aos sete anos da vivência brasileira do escritor francês e reúne textos de respeitáveis homens da cultura brasileira da época, nomes de notoriedade pública que, segundo Sarrazin «representam o escol, a cultura, o pensamento intelectual e moral do Brasil» : Jorge de Lima, Alceu Amoroso Lima, Henrique J Hargreaves, Jean-Bénier, Virgílio de Mello Franco, Augusto Frederico Schmidt, Álvaro Lins, Geraldo França de Lima, Hélio Pelegrino, Paul Gordan entre outros.
Mas mesmo entre esses, desconheço um romancista brasileiro que tenha sucedido Bernanos nos mesmos temas (com igual talento). Tem o leitor a liberdade de fazer correlação dos temas bernanosianos com outros romances brasileiros como Geraldo França de Lima, Carlos Heitor Cony, Autran Dourado ou Antonio Callado – menos pelo anticlericalismo (de natureza diversa da exercida pelos exemplos citados), tampouco por sua ortodoxia, mas sim pela retomada de temas recorrente : a vida religiosa, a persistência do pecado no ser humano, o sacerdócio, a expiação da culpa, o ambiente místico da Igreja e os dilemas dos homens (e mulheres) que vivem dentro e em torno dela. Mas a crítica e os estudos sobre Bernanos entre nós, tampouco, ajudam muito nessa pesquisa.
Recentemente, um estudo francês trouxe a melhor contribuição para aclarar a profundidade das filiações de Bernanos em nosso ambiente cultural. Sébastien Lapaque traça em Bernanos sous le soleil de l’exil (2003) a importância que aquele «time de escol» teve para manter a memória de Bernanos no Brasil. É claro que nenhum deles sustentaria a permanência de Bernanos entre os leitores não tivesse ele o talento que teve (e tem, pois que eterno, sem nunca ter entrado numa Academia de Letras). Seu admirador Geraldo França de Lima entrou (ABL) e, convenhamos, por mais que seu talento tenha sido reconhecido por, ninguém mais, nem menos, que Guimarães Rosa (elogio em público ao seu talento), não escovaria os sapatos do mestre Bernanos. Em outro momento me ocuparei de resenhar Lapaque escondendo o desejo de traduzi-lo para o português, pois que é o melhor depoimento jornalístico e de reconstrução da memória que Bernanos poderia receber chez nous, como homenagem jornalística, ao mesmo tempo acurada e afetiva.
É elogiável que tenhamos nesses dois livros a tentativa de esboçar o perfil do gigante Bernanos, de quem, recentemente vimos ressurgir na mídia francesa, em meio à família dos «escritores místicos», tipologia que tanta influência política exerceu em sua época (Bloy, Péguy, Bernanos), como parte da genealogia literária francesa dos escritores que, por derradeiro, viram florescer sua personalidade e capacidade de influência política, sem culpa de ter feito leitores e cabeças na alta direção de seu país (França) e no estrangeiro (como Bernanos no Brasil).
O crítico e historiador da literatura, Otto Maria Carpeaux, apesar de sua conhecida má-vontade com os escritores católicos franceses – embora fosse ele próprio católico (e ainda mais : um judeu convertido !) – dedica algumas linhas em sua História da Literatura Ocidental para classificar Bernanos como «um cruzado da Fé e da Honra contra a hipocrisia, contra a corrupção de valores». O depoimento de Carpeaux vem carregado, provavelmente, da dificuldade que sobre o crítico deve ter desabado em meio à polêmica mantida com Bernanos, registrada por Olavo de Carvalho no prefácio de Ensaios Reunidos, vol. 1 (citando Andreas Pfersmann, Carpeaux vs. Bernanos, 1993).
Assim, a avaliação puramente literária que Carpeaux faz de Bernanos não é nada animadora, pois, para ele, Bernanos não passa de «um talentoso panfletário». Carpeaux classifica Sous le soleil de Satan como um romance «gótico composto de exaltação mística e sensacionalismo grosseiro». O panfleto seria, segundo Carpeaux, o melhor gênero da expressão bernanosiana – de cuja cepa teria ele, Bernanos, gerado o melhor exemplo do gênero em língua francesa, depois de Rousseau – amostra maior dessa vertente na obra de Bernanos, segundo o crítico, seria Les Grands Cimetières sous la Lune (1936), panfleto dirigido contra os católicos da direita francesa. No entanto, a resposta de Bernanos, que em seu exílio brasileiro não produzira , até aquela época, nenhum romance : «Não sou nem polemista nem panfletário. Menos ainda um doutrinário. Deus sabe o desgosto que tenho por já não escrever romances. É um grande sacrifício para mim. Mas quero devolver às pessoas seus reflexos de boa vontade, de sinceridade...».
Mas a voz lúcida de Bernanos não se calou e, do mais fundo Brasil, falava a seus compatriotas, tentando esclarecê-los sobre o que considerava a «derrota das consciências» e a tripla corrupção – nazista, fascista e marxista na França, donde se evadiu porque o ambiente era irrespirável para a consciência do escritor. Durante o exílio brasileiro, é, majoritariamente, vivendo no interior de Minas que ele escreve Nous autres Français, Scandale de la vérité e uma série de artigos, publicados em jornais brasileiros ou em jornais clandestinos da França ocupada; ou divulgados pela rádio em Londres. Os artigos escritos no exílio brasileiro foram reunidos nos livros intitulados Le chemin de la Croix-des-Âmes, Le lendemain, c´est vous ! , La vocation spirituelle de la France, La France contre les robots e o bombástico Lettre aux Anglais·
Isso nos coloca diante da filiação em política. Teria sido por essa vertente que teríamos filiados ? Tampouco, penso eu. Politicamente, onde se situa Bernanos ? Vejamos a resposta do professor e filósofo Olavo de Carvalho :
– «Homem de direita por temperamento, conservador e monarquista apegado aos valores da vida rural francesa, não hesitou em voltar-se contra seus correligionários para condenar, primeiro, sua omissão ante os excessos do franquismo e, depois, sua cumplicidade com o invasor alemão. E quando a esquerda começou então a cortejá-lo, respondeu que o esquerdismo era a manifestação suprema da imbecilidade universal. Nunca se curvou a ninguém exceto à sua consciência cristã, e mesmo o General de Gaulle, que ele proclamava admirar, confessava : «Esse eu nunca consegui amarrar na minha carroça... ». Em outro trecho, Carvalho sublinha que Bernanos não teme nem hesita em criticar essa mesma direita (francesa) em cujas fileiras Bernanos fora contado : «sem abjurá-la ideologicamente, ele a acusava de omissão ante os massacres franquistas em Palma de Majorca» (in Les grands cimetières sous la lune).
Tendo voltado à França, em julho de 1945, por convocação do general de Gaulle, Bernanos que estivera ao lado do general desde o armistício, recusa sucessivos convites para cargos de ministro, embaixador e mesmo para a Academia Francesa. Fiel ao seu espírito nômade, Bernanos não fica muito tempo em Paris, passando, sucessivamente, por Sisteron, Bandol, Chapelle-Vendômoise. É de seu filho, Jean-Loup Bernanos a resposta mais acurada à pergunta acima :
– Visceralmente livre e incapaz de submeter sua consciência ao mínimo compromisso, Bernanos é o exemplo cabal de um homem que nunca se sentiu confortável com as classificações políticas habituais. Profundamente católico, era, ao mesmo tempo e a seu modo, anticlerical e anticonservador – que o prova sua reação à repressão franquista em Palma de Majorca; aparentemente próximo da esquerda por esse ato, ao retornar à França, considera insuportável o ambiente de ascenção dos partidos de esquerda e estes julgam seus artigos profundamente reacionários. E finaliza : «na verdade, Bernanos tinha a nostalgia do tempo em que as noções de direita e esquerda não existiam». Nostagia de «l’ancienne France, si unie et si diverse à la fois où chaque Français pouvait trouver sa place, l’occuper avec honneur...» (Notice biographique, dans Georges Bernanos, Romans, Omnibus/Plon, 1994).
O crítico Otto Maria Carpeaux, em sua História da Literatura Ocidental formulou outra importante questão (tal como a de Asensio) : pode Bernanos ter sucessores ? Resposta positiva ele encontrava apenas em Luc Estang, que para Carpeaux é «literariamente mais audacioso que seu mestre», para reafirmar, no entanto, que «a ortodoxia de Bernanos só colhe honra e glória com o que a crítica literária tenha afirmado contra ele». O que parece inteira verdade inclusive em relação ao que disse e deixou de dizer o mestre Carpeaux.
Álvaro Lins, por sua vez, afirma que não é nos padrões canônicos do romance, de seus modelos acadêmicos que podemos enquadrar a obra de Bernanos, porque este seria «da raça dos escritores que usam os gêneros literários como personalíssimos instrumentos. Panfleto, romance, eloqüência ? O seu gênero é o do seu temperamento dramaticamente poderoso de genuíno grande-homem; e o do seu estilo singularmente estrutural de autêntico grande escritor.»
Diante desse conflito em que o próprio crítico se coloca, Álvaro Lins extrai a solução do temperamento como explicação : «do romance católico de Bernanos não se dirá apenas que é o romance de almas, mas um romance de almas em oposição».
Examinando a natureza dessa oposição, Álvaro Lins acrescenta :
– «O romance de Bernanos é o das oposições : entre almas, entre sentimentos, entre instituições; e seu ponto de partida cifra-se numa idéia que está expressa em Monsieur Ouine : a de que não há fogo no inferno, mas frio. O fogo, que é a vida, está do lado divino. E é pelo fogo que o católico se configura em face do mundo, num movimento que deve ser mais de oposição do que de integração”.
Mas, afinal, quem é Bernanos para os leitores atuais ? Infelizmente, parece que a melhor resposta é que Bernanos continua um desconhecido da nova geração de leitores, embora dois ou três de seus livros (Diário de um Pároco de Aldeia, sobretudo) continuem sendo vendidos, lidos e comentados, mesmo que esta geração midiática não o conheça mais profundamente.
Ainda cabe citar o filósofo Olavo de Carvalho, que classifica Bernanos como «romancista de gênio e temível polemista que se dizia conservador, mas cuja identidade se tornava difícil de catalogar depois de páginas coléricas contra os judeus e contra os nazistas, contra aristocratas e burgueses, contra comunistas, contra Franco, contra socialdemocratas e contra o Governo de Vichy». E finaliza, em tom irônico, dizendo que Bernanos «não poupava ninguém, exceto Santa Terezinha do Menino Jesus e o General de Gaulle».
Em conclusão, Bernanos não há de ter filhos literários, mas de crença. E sua literatura, sem servir ao modelo de catequização é, além, e acima de tudo, modelo da expressão da Fé e da Esperança, porque para ele «nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva». Ninguém melhor que Bernanos poderia ilustrar essa legenda.